terça-feira, 7 de novembro de 2017

Ideologia de gênero: quem inventou?

Com a autorização da autora - a prof. doutora em Filosofia Camila Prado - indico um texto imperdível: "Ideologia de gênero - quem inventou?" 

http://caririrevista.com.br/ideologia-de-genero-quem-inventou/



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pátria - ali, de onde vim



Chico canta o "Cotidiano" e vem, de suas múltiplas origens, me dizer que, mesmo na delicadeza e na simplicidade, se pode ser muitos, o tempo todo.
Mestre da arte de vadiar pelos diversos seres que o habitam, me leva, sua voz, a minhas pequenas pátrias, a minha insistente busca de afinidades, no desejo obstinado de encontrar compatriotas.

Cresci estrangeira - numa casa "portuguesa com certeza" que tinha cheiro e cor de muito antes, de além-mar, e que foi, a um só tempo, esteio e estranheza, já que, lá fora, no chão, na argila ou na lama onde fui gerada, tinha vala negra e menininho barrigudo, sem calça e de pé no chão... E se me sufocou, sempre, o calor da temperatura-ambiente, simultaneamente só crescia, em mim, o fogo da vontade de me consumir em envolvimentos e aproximações.

Agora, o Chico canta o rio e o barco Paciência... E lá estou eu, atirada um ano atrás, no Rio Amazonas, buscando quem era, quem sou. Achei. Voltei cheia de mim. Quis mais que nunca a proximidade. Quis, mais que sempre, orgulhar-me da flama e da chama, ainda quando elas representem dor e até morte.

Fui outrora de uma terra onde brotava esperança.
Depois fui de uma outra, onde germinava coragem.
Fui dedicação e fui esquecimento... principalmente esquecimento de mim mesma.

Minha pátria, nesse exato momento, tem pouco mais (ou menos) de 30m² e hoje, enquanto escrevo, abriga vinho português, queijo francês, envolvidos pela magia indígena brasileira e, por isso mesmo, traz interiorização universal.
Estou indo... cada vez menos só... a caminho da construção de meu destino. Mas vou sozinha.

Se reconheço hinos e flâmulas nos parceiros de momentos sublimes, choro minha estrangeira e inadequada dor de ser só eu mesma, depois que tranco a porta e consigo me perder, até no box de um banheiro onde nem tenho espaço pra me virar.

Tive pátria, um dia, quando subi a montanha do orquidário Guinle, na Petrópolis da minha infância, e me senti livre, aspirando o perfume do mato e da terra e, quando, gritando minha alegria, provoquei desconforto a minha volta. Aquela terra era minha! Ao menos naquele ínfimo instante em que eu e ela nos misturamos -  essência pura!
Encontrei minha pátria outra vez, perto do céu, inebriada com a altura e a beleza da neve brilhante ao sol. Era eu que estava ali e eu era, a um só tempo, aquilo tudo!
Tive pátria, no país de meus avós, e chorei por aquele encontro, misturando as águas de riachos para tentar levar D. Pedro de volta a Inez de Castro, num momento eterno, que eu pude reter com minha respiração. E, também, na grande cambalhota cósmica que a terra do Vale do São José do Rio Preto me mostrou, tanto tempo antes. Senti a paisagem e soube que sempre fora assim.

Perdi minha Pátria tantas vezes também!
Uma vez foi quando, no colégio, menina ainda, me disseram que as águas que rolavam de meus olhos eram deselegantes e eu, chorando na hora da festa, era, portanto, um pária.
Depois, virando adulta, quando minha emoção foi chamada de stress. Acho que esgotamento nervoso é mais ou menos como embarque sem passaporte. Você fica retido na alfândega, porque não tem o reconhecimento externo para entrar nem sair, de nenhum lugar.

Mas Pátria, mesmo, eu própria me senti, por inteiro, quando pari meus filhos, com enorme dor e prazer extasiante. Pátria sangrenta e poderosa, de onde saíram três criaturas fortes e cheias de Vida que eu, terra fértil, favoreci eclodir.
E mais Pátria ainda fui, ao ver jorrar de meus seios, até então quase imperceptíveis, alimento quente e confortante. Ao vê-los, minhas crias/criaturas, saciadas e em paz. Ao ver-me nutriz - terra boa. Como quando se perderam e se encontraram, em mim, os companheiros que confiaram em minhas sendas. Que bom poder ser porto seguro! Que bom ser a terra mater/pater - pátria! Que bom conter e dar prazer!
E a experiência de poder ser terra à vista?
Que bonito o olhar que recolho, quando penso ser quimera e me posso
ver como Terra Prometida!

           Um dia, esse meu corpo foi pouco pra tanto querer - virei instituição. E soberba e pretensiosamente (só hoje sei) fui me tornando Escola. A Vida, como comprometimento, me ofereceu o mote: que fosse Viva a destinação que eu ia dar a minha história. E foi.
           Depois de, nem posso enumerar quantos, momentos de profunda emoção, eu sabia que minha pequena ilimitada pátria tinha ficado guardada dentro de muita gente. E pude libertá-la dos grilhões de tempo e de espaço.

                Hoje, sou quase velha. Disfarço bem, mas vou me encaminhando pra uma nova passagem. Procuro quais serão as próximas etapas. Cada vez mais lentamente, é verdade. Quem vê não diz, porque quem vê não sabe de um tempo em que fui intangível.

                A Pátria de hoje é fortalecida diariamente pelos desenganos, tanto quanto pelas surpreendentes pequenas alegrias: ora é um passarinho que canta um mio, ora uma criança que confirma: "Aqui encontrei amor"; ora um amigo antigo que acena solidariedade e compaixão; ora um desencontro novo que vira desafio.
                Minha pátria hoje, sem notícias de tevê ou de jornal, resume-se a afetos e a eles decidi me jogar por inteira. Vivo de poucos sorrisos, irrigo-me de lágrimas inevitáveis e sonho abraços.

                Minha pátria chega, às vezes, em encontros nunca vividos. Pode ser, como agora, na música do Chico, ou no "Assédio" do Bertolucci.  Mas, se o filme "O Paciente Inglês" falou tão profundamente em mim é porque, com certeza, tenho irmãos e parceiros, onde quer que eles estejam.
                Acabei por descobrir que, nesse chão mesmo, que tem nome e território demarcado como Brasil - e não é à toa -  mora meu fogo interior e tenho ido à procura dele.
                Tem horas que ele aparece na vela, que teimo em acender, ritualmente, pra pedir e agradecer - agradecer e pedir - num exercício sem fim de desejar e merecer... Outras vezes a chispa me pega no meio do sono e acordo tendo a certeza de ter sido visitada. Acolho a presença que me surpreende e acolho-me, na capacidade gratificante de ser ancoradouro.

                No céu, encontro a Luz e ela me diz –“Sossega! Tudo isso é muito maior que você!"
 Sou, nessa hora, parte de um todo que me envolve com tal segurança e tranquilidade, que posso saber exatamente de onde vim

                São pátria também - e são território e pertencimento - os fugazes e eternos momentos de encontro a dois. Delicio-me e peço que durem. Que parem todos os relógios, que pare meu coração-bomba/ritmada, que pare o ar, que eu possa saber que sou e que já não estou sozinha.
                Que eu possa esquecer que estive perdida, que eu possa despreocupar-me de ir lá fora e encontrar guardas da alfândega que vão querer saber:
-          Por quê?
-          Pra onde?
-          Pra quê?
Coisas a que eu, agora, só posso responder com um balanceio de cabeça, que aprendi, contemplando os passarinhos.
                                                                               

(Texto escrito em 07 de setembro de 2000, para ser lido no  Sexta Cultural do Centro Cultural Viva e publicado no blog www.vasosagrados.zip.net em 11.09.2007).

domingo, 15 de outubro de 2017

Por um dia em que se celebra a arte do magistério.


Fugi tudo que pude ao destino de ser professora.

Fadada desde sempre, oscilava entre o desejo, surgido ainda na infância, de querer mudar o mundo, salvando as crianças barrigudinhas, que via brincando na beira das valas negras, sem calças, nem sapatos (quando ia a Duque de Caxias aos domingos, visitar meus avós) e a premência de escrever poemas, surgida mais ou menos na mesma época.

Adolescente ainda, comecei a dar aulas particulares. Os alunos eram aqueles em que as escolas não apostavam o suficiente para dedicar-lhes a atenção individual que necessitavam, pediam, desejavam. Acolhidos, meus discípulos-problema convertiam-se em bons estudantes. Descobri que o caminho certo era pelo afeto, pelo zelo.

Quando me chegaram os filhos, com seu crescimento, fui em busca de uma escola boa o suficiente. Juro que tentei. Não havia. Ousei. Transformei, então, minha necessidade de dar-lhes uma educação de qualidade numa oportunidade para muitos.
Em 1974, ainda com 24 anos, fiz erguer a placa da Escola Viva, numa casa de muitas janelas azuis, no centro de Petrópolis. Paredes pintadas com ilustrações poéticas, transformamos sucatas em brinquedos que não se compravam em lojas. Fomos um sucesso desde o início!

15 anos de trabalho contínuo, noites espremidas em dias quase intermináveis, de sonhos arrebatadores, de paixão alucinante por projetos, que brotavam  tanto do brilho dos olhos, como das risadas ou tristezas das crianças. Delas sempre veio a Luz da criação e a coragem para não desistir e ousar cada dia um pouquinho mais.

Ainda sob as restrições dos tempos de perseguições e mediocridade, criamos um oásis de esperança, vivido na espontaneidade, na honestidade, na franqueza, no reconhecimento de nossas limitações e ao mesmo tempo na dedicação extrema a cada menino e menina, a cada família, a cada funcionário, a cada colaborador.

Meu Deus, como era bom!

Acompanhei o crescimento dos alunos, a hesitação dos pais, o desalento dos professores, suportando a hostilidade de uma parte da sociedade extremamente conservadora numa cidade que, ainda hoje, insiste em se gabar de ser imperial. E posso dizer que contribuí para que houvesse um sopro de saúde contagiando e vivificando a atmosfera local.

Depois, a Escola Viva seguiu seu destino e virou Centro Cultural.  E assim, insiste em manter desperto, ainda hoje, seu compromisso com as culturas brasileiras...

Hoje, 43 anos passados, num Brasil combalido, procuro em minhas lembranças, um esboço de roteiro, pra passar adiante àqueles que persistem em acreditar no único verdadeiro caminho de transformação humana: o da Educação.

Sempre afirmei minha crença em que as grandes mudanças se fazem do individual para o coletivo e que, por isso mesmo, a dedicação a cada ser humano, que estamos a formar, é fundamental para virmos poder criar um mundo melhor, mais justo, mais harmonioso, mais feliz. 
Qualquer tipo de discriminação e de segregação, qualquer espécie de seleção e estratificação, toda forma de avaliação quantitativa e de nivelamento é incompatível com o trabalho de formação de seres humanos livres e dignos.

O caminho é aquele mesmo que a menininha, olhando pela janela do carro, ao passar pelas ruas sem saneamento básico, na baixada fluminense, já adivinhava: é preciso juntar alma,  mãos e boas palavras  para iniciar, imediatamente, o trabalho. E fazê-lo com intensidade e comprometimento. Sempre!

Minha gratidão aos muitos professores, educadores, mestres, adultos, jovens ou crianças, que ainda estão por aqui ou já partiram, com quem venho compartilhando meu percurso.  
  

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Por não ver


Nunca esquecerei aquele olhar. Gélido.

O que a mulher ia dizendo à filha, palavras aparentemente corretas, quase doces, como conselhos, saíam de lábios contornados com o batom da cor adequada para o momento, combinando com o penteado certo, um vestuário sóbrio e elegante e com sua postura, ereta, mas que não chegava a denunciar arrogância. 
Falávamos do comportamento de sua filha, uma adolescente rebelde. Uma moça afetuosa, sem empenho nos estudos e nenhum comprometimento com a própria segurança . 
Nosso encontro, previamente agendado, aconteceu em cadeiras de ferro, num terraço que se abria para o lindo jardim da escola, numa manhã azul de primavera. Impossível esquecer. Tudo era vida a nosso redor, combinando bem com a crise de crescimento da jovem. Mas o olhar que a mãe lhe lançava era mortífero e só pôde ser percebido, porque escapava ao controle. Provavelmente, as regras de etiqueta, ensinadas pela Socila, às mulheres de sua época, não incluíam a educação do olhar. 

Mãos e olhares  denunciam.  Há que prestar-lhes toda a atenção possível.

Acho que não correrei o risco de esquecer o que está acontecendo a minha volta, hoje. A indignação não me permitirá puxar a cortina sobre o cenário de filme de terror que estamos vivendo.
Venho moderando meu tom, na escrita e rareando as conversas, a viva voz. Busco incessantemente uma forma de não causar mais estragos, em meio a tanta destruição a que assisto, impotente. No entanto, não posso controlar meu sentimento de espanto, frente a  hipocrisia e  cinismo tão afrontantes. 

Aquela mulher, que me congelou a alma, tempos passados, recusando-se a compreender que era de afeto e zelo a carência de sua filha, embora lhe fossem dadas todas as regalias que o dinheiro pode comprar, vem vivenciando, ano após ano, calvário sobre calvário, numa família repleta de dependentes químicos, disputas por heranças e desamores. Não sei o quanto ela tem aprendido com tudo isso, nem se, em algum momento, seu olhar se humanizou. Temo que não.

Da mesma forma, tantos e tantos que, nesse momento, defendem seus direitos individuais (falando dos bens materiais e de uma pretensa segurança de que não podem abrir mão), passando por cima, sem sequer olhar, de multidões desassistidas, de corpos trucidados, de encarceramentos injustos, de retirada de direitos essenciais dos cidadãos comuns, talvez nunca mudem os gestos de descaso, que lhes garantem uma distância protetora.

Se aquela mãe tivesse, exasperada, sacudido sua filha, na minha frente, eu teria podido interferir e acudir, a ambas, para que, enfim - quem sabe? - buscassem se conhecer, de fato. Mas era impossível acusá-la de descaso apenas por um olhar, que eu captei por segundos. E, dessa forma, indefesa, deixei-me ferir também.

No Brasil de hoje, a violência se derrama em atos, mas também pela ausência deles. Apenas comentar, com lamentos polidos, a desgraça de nossos irmãos e a destruição do país e do  povo é uma forma de vivermos, quase como se fora ficção, a realidade mais torpe em que estamos mergulhados.

Fingir não ver também é violência. Talvez a mais cruel de todas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Vida não é um jogo de Batalha Naval

Descobri hoje, assistindo ao filme Dunquerque, que o prazer que eu tinha em jogar Batalha Naval na adolescência e até depois de adulta, era porque não me ocorrera pensar que, dentro das embarcações inimigas há seres humanos. Mais uma coisa (das tantas!) que perdeu, irreversivelmente, a graça para mim. Terei que reinventar o mesmo desafio espacial do jogo (tão bom!), usando outro motivo, que não seja guerra.

Dias passados, ouvi falar desse filme em casa e fiquei curiosa. Depois, li um texto, assinado por Ricardo Rangel, que cita uma frase de um célebre discurso de Churchill “Não se vencem guerras com retiradas”. E por aí, seguindo um encadeamento de pensamento confuso, o jornalista descamba para chegar a uma crítica absurda aos governos petistas, dizendo que eles ideologizaram o ensino. Lamentável! Não sei o quanto ele acompanha o processo de Educação no Brasil, mas, se quer defender a importância deste – no que teria meu total apoio – precisa se basear em pesquisa mais real e honesta, e não apenas em suas simpatias e antipatias próprias.

Hoje chega-me o texto “A arte da guerra” de Arthur Dapieve, que, de  certa forma , responde a seu colega, citado acima. Arthur ressalta o mesmo discurso de Churchill  (de quebra me fazendo saber que este ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953!),  mas trazendo uma versão um tanto diferente: “Guerras não são ganhas com evacuações” – e, de quebra, alerta para o duplo sentido da última palavra, no inglês – evacuation. Dá pra pensar, assim, que o uso do termo retirada não foi uma boa opção. 
Continuando nos elogios à capacidade oratória de Churchill, Dapieve diz que ouvir a fala do primeiro ministro inglês o conclama a pegar um rifle e correr para uma trincheira - inglesa, como ele a situa.

Pois bem. Não consegui resistir mais a tanto estímulo e fui conferir, assistindo ao filme, que, no Brasil, é chamado pelo nome original – Dunkirk.
Por duas horas, sofri muito. Vi-me outra vez uma menina, num tempo em que os filmes da segunda guerra eram tão comuns e me faziam suar frio, ter taquicardia, esticar o corpo na cadeira, segurar o rosto, cobrir gritos imaginários com as mãos, tudo para dar conta de emoções tão maiores que meu frágil corpo. Mas, felizmente, as sensações não ficaram apenas por aí e me fizeram pensar, ligando o que vi ao que ouvira e lera.

O primeiro colunista, da mesma forma que a pessoa de minha família, ressalta a ausência de visibilidade dos inimigos alemães. Eu penso que é pra lá de oportuna essa estratégia, exatamente porque o que o filme faz é que sintamos que o grande inimigo não tem nacionalidade. Ele pode surgir de dentro de cada um de nós, nos sabotando, nos surpreendendo, nos atacando, nos fazendo maltratar o outro, rejeitá-lo, feri-lo, destruí-lo, nos tornando frágeis, doentes, perversos.
Poderíamos pensar que, em tempos de guerra, isso é natural. Mas que tempos na vida que conhecemos até hoje, não têm sido tempos de guerra?
A espécie humana, representada nesse caso pelos homens e pelo comportamento masculino, sob toda sorte de pretexto - de competição, por garantia de sobrevivência, de salvaguarda da propriedade, de proteção da família, de defesa da honra etc. etc. etc. – sempre viveu às turras e segue se especializando e se aparelhado mais e mais para matar melhor, para destruir em escala maior e maior e maior, servindo assim, cegamente, à Tanatos, a força mortífera por execelência.
Por outro lado, os parceiros (porque o termo aliado já me cheira mal, de tão desgastada) têm, em nós, a mesma origem. E resistem heroicamente ao combate interno, insistindo em que sejamos compassivos, solidários, indulgentes, honestos, persistentes e que acima de tudo não percamos a esperança na força da Vida - Eros.

Há momentos preciosos no filme, que nos fazem perceber o quanto podemos ser sublimes e o quanto podemos, igualmente, ser mesquinhos. Não tem sentido relatá-los aqui, mas ao assistir de coração aberto, a gente sabe exatamente porque o trecho do discurso de Churchill que encerra a apresentação fala de um mundo velho que se acaba, para que um mundo novo possa surgir.

O "Canal da Mancha" de nossos dias também precisa ser atravessado, para aqueles que sobrevivermos ao massacre de nossos ideais, de nossas conquistas arduamente construídas, da tentativa de nos tirarem a fé em nossos valores.
Sim, nós precisamos voltar para casa. Para o lugar, dentro de cada um, em que ainda exista comprometimento com o Bem.

Clarissa Pínkola Éstes, no livro “Mulheres que correm com os lobos” ensina que às vezes recuar pode ser a melhor estratégia, para traçar uma rota possível de defesa.

Pensando no Brasil de hoje e parodiando Churchill, eu diria que não será com essa “lambança” (pra não dar o sinônimo exato ao dejeto da evacuação forçada) que iremos ganhar a batalha em que estamos sendo metidos à força, como recrutas ingênuos. Mas que sirva de estrume todo o lodaçal que tem sido remexido e em que nos tem sido enfiado goela abaixo.


A transformação virá. O velho mundo agoniza e soçobrará, como uma embarcação inadequada. Questão de tempo. Há de vir uma humanidade nova, que não se erga sob os escombros de seus semelhantes. 

Em tempo: Se você mudar a localização da trincheira, Arthur Dapieve, conte comigo na defesa do território da esperança.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O roubo da alma


Recomendaram-me assistir “Monsieur e madame Adelman”. Fui e agradeço a indicação. É um excelente filme!
No saguão de entrada do cinema encontrei amigos que supunham estarem indo ver  uma comédia romântica. Pela sensibilidade de quem me enviou esta sugestão por email, imaginava que não se tratava bem disso. Acertei, é claro.
O filme remontou-me às leituras de Clarissa Pínkola Estés em seu “Mulheres que correm com os lobos”, quando ela fala do roubo da pele, roubo da alma, a partir do mito “Pele de foca”. Ali, no texto de Clarissa, é a mulher quem perde sua essência. Trabalhei 14 anos com grupos de muitas mulheres e alguns poucos corajosos homens sobre esse tema e outros afins. Sempre procurei dar enfoque ao feminino como força potencial, comum aos dois sexos, mais que ao gênero propriamente dito.
No entanto, atualmente, venho pensando insistentemente, a partir de uma observação apurada sobre os relacionamentos que assisto e de muitos que, por tão próximos, chegam a me preocupar e até ferir de certo modo, em como essa questão tem vindo se propagando e acirrando e de como, muitas vezes, é a mulher que tem sequestrado o espírito do companheiro.
Quando me refiro à mulher e homem, leiam, por favor a função que cada um desempenha, na relação, qualquer que seja o tipo de casal.
Em “Monsieur e madame Adelman” acontece justamente essa mistura de identidades e esse aprisionamento do outro, por ressentimento, insegurança, obstinação, inveja, tudo muito bem disfarçado no invólucro denominado amor, casamento, parceria.
Conheço esse roteiro e posso testemunhar, com segurança, que não acaba bem.
Saí do filme triste, cansada, apressada em regressar à mim.
Aos 69 anos, muitas relações pessoais, dois casamentos, amores intensos e espectadora/cuidadora de muitos envolvimentos a meu redor, não consegui me vacinar contra desencanto, manipulação, distorção, controle. Embora meu faro me permita identifica-los à distância, sinto-me impotente frente à inebriante atmosfera que o encantamento cria e às distorções que cria.
“Monsieur e madame Adelman” traz o espelho e a possibilidade de reflexão.

Endosso aqui a recomendação.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fala Comigo!



Desde o título, o filme é corajoso. Porque exprime a reivindicação que todos temos, ainda quando se mantém latente; até mesmo aqueles que, perseguidos por tagarelices incessantes, possam afirmar o contrário. Palrear é diferente de falar e falar, diferente de falar com -  essa a questão.
Vivemos num mundo entupido de palavras ocas - vazias de sentido, soltas, aglutinadas, sem conexão com afetos - escritas, faladas, ouvidas, cantadas, caladas, recalcadas, e/ou não percebidas...
Doze anos atrás, Felipe Sholl iniciou o trabalho do roteiro de Fala Comigo. Melhor dizendo, concebeu o germe da história, gestada longamente, no decurso de seu amadurecimento como cineasta, ele que, ainda hoje menino (no melhor sentido do atributo), já nasceu velho, como dizia meu pai, quando se referia a bebês que vêm a esse mundo, plenos de um saber experiente.
Felipe sempre foi bom ouvinte. Ouso valer-me de observação de longa data, porque a sua e a minha seriedade nos permitem lembranças, desde quando eu o via, criança ainda, na piscina do Clube Germânia, depois ator iniciante no teatro do  Colégio Bennett, até como sócio do Disse-me-disse Café-e-Cultura, nos tempos do Centro Cultural Viva, em Botafogo, criadouro de uma bela geração de jovens talentosos. Felipe Sholl, em todas as ocasiões, olhos e ouvidos atentos, tanto sorvia como temperava, suave e precisamente, a convivência a seu redor.
E foi logo depois, que ele iniciou o roteiro do filme Fala Comigo, construindo-o em muitas faces e arestas consequentes, como toda boa conversa precisa ter.
Esperei por esse filme, com o carinho de quase madrinha, lugar a que me outorguei, mal soube, por ele, da existência do projeto, quando já ia em fase de finalização.
E eis que, agora, surge a obra, na tela grande, ocupada e preenchida por muitos bons atores e excelente produção, trazendo, enquanto conta a intrigante história, importantes e oportunas denúncias:

- da família burguesa, pôster de felicidade supostamente inquestionável, com imagem que parece quase perfeita ao observador menos exigente, e cujos membros, no entanto, não conseguem ter, entre si, comunicação real. Neste caso, pai e filhos giram em torno de uma mãe centralizadora, ela própria rodopiando sobre o esteriótipo de oráculo impenetrável, em que se encastelou, no papel de psicanalista.
Ah! Como precisamos – mulheres que lutamos por afirmação e emancipação – repensar a entronização que almejamos, construímos, e na qual ficamos cativas.

- da psicanálise exercida por terapeuta que, tomando arrogantemente o lugar de sujeito suposto saber, entrincheira-se na teoria, sem arriscar o conhecimento preconizado por Winicott da mutualidade, reciprocidade e experiência compartilhada, onde se dá o brincar capaz de criar e desenvolver. A pressa e despudor de diagnosticar, fazer previsão, determinar o outro e negar-lhe o direito à escolha de seu próprio destino, usados como defesa, está explícita  na cena em que a terapeuta confronta desrespeitosamente a paciente que ousou abandonar o tratamento e seguir outro caminho de autoconhecimento, na busca de autoestima.

- da polidez distanciada entre as pessoas, que nos garante uma convivência morna, aparentemente correta, mas que não facilita a criação de laços afetivos. Os porteiros, os médicos e os funcionários do hospital, os professores da escola, os colegas (porque amigos, não os há, nesta história) exemplificam perfeitamente uma forma de viver dentro de limites, que poderiam se dizer comuns, talvez, em que cada um guarda, para si, suas dúvidas, suas inseguranças, suas dores, sua vida e até sua morte, sem o risco de produzir muito ruído e de entrar em contato com sua própria humanidade, através da percepção do outro.

- do modelo de relação amorosa adotada como padrão em nossa sociedade  – homem x mulher, de idades próximas, grupos, classes sociais e costumes semelhantes – modelo que só pressupõe e aceita exceções para fortalecer-se como fator excludente de quaisquer outras possibilidades.
 A mãe-analista, no filme, demonstra aparente e quase displicente tolerância ao ouvir o relato do filho sobre seu interlúdio de prazer sexual com um colega, mas abomina a simples ideia de ele poder viver um romance com uma mulher mais velha.

- da função paterna e do papel do masculino, representados por presenças ausentes e ausências presentificadas. O pai, que não está ali de fato, aceita o lugar de subjugado, que o enfraquece frente aos filhos. Já o marido da amante, que a abandonou e por quem ela sofre e chora, volta ilusoriamente à cena, na fantasia vivida pela mulher ao ouvir, no telefone, não palavras, mas uma respiração ofegante, sinal indelével de vida e do desejo, a que ela, ferida amorosamente de morte, aspira, necessita e que a vai libertar, enfim.

Ah, Felipe Sholl, suas colegas de adolescência, presentes à primeira pré-estreia o Rio, tiveram toda razão ao afirmar como é impressionante que você tenha acumulado tanta experiência, ainda tão jovem!
Sobressai tal sabedoria na sua forma irreverente e ao mesmo tempo singela e divertida de tratar os temas do corpo – o gozo, o orgasmo, o esperma, o corpo da mulher, que ao invés de petrificado no atual modelo estéril do consumo, aparece como sinal de abundância. Esse, aliás, um dos grandes momentos da interpretação do ator mais jovem, que consegue, através de magnífica expressão facial, transmitir a ideia de fartura, no deslumbramento com que admira a nudez da amante.
Tudo isso nos é mostrado, sem deslizar, em momento algum, para o campo minado da vulgaridade ou da inconsequência. Ao contrário, transmite e exprime potência de Eros,  libertação, aceitação do que é júbilo e renovação, saúde psíquica, enfim, na aceitação do  humano,  do lúdico, do espontâneo.
E, harmoniosamente entrelaçadas, estão as referências necessárias ao inevitável, que não é prazeroso: desencontro, frustração, separação, abandono, inveja, desamor, solidão, desilusão, medo, desespero.

Talvez, o mais importante seja que, sem lições a oferecer, o filme termine no meio do caminho – como se inicia. Um outro momento, outras possibilidades, a escolha de estradas está por ser feita e os percursos, desafios a mais, a cada momento; em parceria, sempre temporária, ainda quando renovada.

- Fala comigo! – eu murmuro ao se acenderem as luzes do cinema, buscando um interlocutor.
E saio da sessão, muito mais disposta a me falar, a me ouvir, a falar, a ouvir, a ser ouvida, a pensar, repensar e me oferecendo a ser repensada. É pulsão de vida pura, esse trabalho!
Parabéns, Felipe Sholl e sua equipe! Minha gratidão exposta e registrada, deixo aqui.

                                                                                                              11.07.2017
                                                    Maria Inez do Espírito Santo
                                                    

                                         escritora e terapeuta cultural