terça-feira, 15 de agosto de 2017

Por não ver


Nunca esquecerei aquele olhar. Gélido.

O que a mulher ia dizendo à filha, palavras aparentemente corretas, quase doces, como conselhos, saíam de lábios contornados com o batom da cor adequada para o momento, combinando com o penteado certo, um vestuário sóbrio e elegante e com sua postura, ereta, mas que não chegava a denunciar arrogância. 
Falávamos do comportamento de sua filha, uma adolescente rebelde. Uma moça afetuosa, sem empenho nos estudos e nenhum comprometimento com a própria segurança . 
Nosso encontro, previamente agendado, aconteceu em cadeiras de ferro, num terraço que se abria para o lindo jardim da escola, numa manhã azul de primavera. Impossível esquecer. Tudo era vida a nosso redor, combinando bem com a crise de crescimento da jovem. Mas o olhar que a mãe lhe lançava era mortífero e só pôde ser percebido, porque escapava ao controle. Provavelmente, as regras de etiqueta, ensinadas pela Socila, às mulheres de sua época, não incluíam a educação do olhar. 

Mãos e olhares  denunciam.  Há que prestar-lhes toda a atenção possível.

Acho que não correrei o risco de esquecer o que está acontecendo a minha volta, hoje. A indignação não me permitirá puxar a cortina sobre o cenário de filme de terror que estamos vivendo.
Venho moderando meu tom, na escrita e rareando as conversas, a viva voz. Busco incessantemente uma forma de não causar mais estragos, em meio a tanta destruição a que assisto, impotente. No entanto, não posso controlar meu sentimento de espanto, frente a  hipocrisia e  cinismo tão afrontantes. 

Aquela mulher, que me congelou a alma, tempos passados, recusando-se a compreender que era de afeto e zelo a carência de sua filha, embora lhe fossem dadas todas as regalias que o dinheiro pode comprar, vem vivenciando, ano após ano, calvário sobre calvário, numa família repleta de dependentes químicos, disputas por heranças e desamores. Não sei o quanto ela tem aprendido com tudo isso, nem se, em algum momento, seu olhar se humanizou. Temo que não.

Da mesma forma, tantos e tantos que, nesse momento, defendem seus direitos individuais (falando dos bens materiais e de uma pretensa segurança de que não podem abrir mão), passando por cima, sem sequer olhar, de multidões desassistidas, de corpos trucidados, de encarceramentos injustos, de retirada de direitos essenciais dos cidadãos comuns, talvez nunca mudem os gestos de descaso, que lhes garantem uma distância protetora.

Se aquela mãe tivesse, exasperada, sacudido sua filha, na minha frente, eu teria podido interferir e acudir, a ambas, para que, enfim - quem sabe? - buscassem se conhecer, de fato. Mas era impossível acusá-la de descaso apenas por um olhar, que eu captei por segundos. E, dessa forma, indefesa, deixei-me ferir também.

No Brasil de hoje, a violência se derrama em atos, mas também pela ausência deles. Apenas comentar, com lamentos polidos, a desgraça de nossos irmãos e a destruição do país e do  povo é uma forma de vivermos, quase como se fora ficção, a realidade mais torpe em que estamos mergulhados.

Fingir não ver também é violência. Talvez a mais cruel de todas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Vida não é um jogo de Batalha Naval

Descobri hoje, assistindo ao filme Dunquerque, que o prazer que eu tinha em jogar Batalha Naval na adolescência e até depois de adulta, era porque não me ocorrera pensar que, dentro das embarcações inimigas há seres humanos. Mais uma coisa (das tantas!) que perdeu, irreversivelmente, a graça para mim. Terei que reinventar o mesmo desafio espacial do jogo (tão bom!), usando outro motivo, que não seja guerra.

Dias passados, ouvi falar desse filme em casa e fiquei curiosa. Depois, li um texto, assinado por Ricardo Rangel, que cita uma frase de um célebre discurso de Churchill “Não se vencem guerras com retiradas”. E por aí, seguindo um encadeamento de pensamento confuso, o jornalista descamba para chegar a uma crítica absurda aos governos petistas, dizendo que eles ideologizaram o ensino. Lamentável! Não sei o quanto ele acompanha o processo de Educação no Brasil, mas, se quer defender a importância deste – no que teria meu total apoio – precisa se basear em pesquisa mais real e honesta, e não apenas em suas simpatias e antipatias próprias.

Hoje chega-me o texto “A arte da guerra” de Arthur Dapieve, que, de  certa forma , responde a seu colega, citado acima. Arthur ressalta o mesmo discurso de Churchill  (de quebra me fazendo saber que este ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953!),  mas trazendo uma versão um tanto diferente: “Guerras não são ganhas com evacuações” – e, de quebra, alerta para o duplo sentido da última palavra, no inglês – evacuation. Dá pra pensar, assim, que o uso do termo retirada não foi uma boa opção. 
Continuando nos elogios à capacidade oratória de Churchill, Dapieve diz que ouvir a fala do primeiro ministro inglês o conclama a pegar um rifle e correr para uma trincheira - inglesa, como ele a situa.

Pois bem. Não consegui resistir mais a tanto estímulo e fui conferir, assistindo ao filme, que, no Brasil, é chamado pelo nome original – Dunkirk.
Por duas horas, sofri muito. Vi-me outra vez uma menina, num tempo em que os filmes da segunda guerra eram tão comuns e me faziam suar frio, ter taquicardia, esticar o corpo na cadeira, segurar o rosto, cobrir gritos imaginários com as mãos, tudo para dar conta de emoções tão maiores que meu frágil corpo. Mas, felizmente, as sensações não ficaram apenas por aí e me fizeram pensar, ligando o que vi ao que ouvira e lera.

O primeiro colunista, da mesma forma que a pessoa de minha família, ressalta a ausência de visibilidade dos inimigos alemães. Eu penso que é pra lá de oportuna essa estratégia, exatamente porque o que o filme faz é que sintamos que o grande inimigo não tem nacionalidade. Ele pode surgir de dentro de cada um de nós, nos sabotando, nos surpreendendo, nos atacando, nos fazendo maltratar o outro, rejeitá-lo, feri-lo, destruí-lo, nos tornando frágeis, doentes, perversos.
Poderíamos pensar que, em tempos de guerra, isso é natural. Mas que tempos na vida que conhecemos até hoje, não têm sido tempos de guerra?
A espécie humana, representada nesse caso pelos homens e pelo comportamento masculino, sob toda sorte de pretexto - de competição, por garantia de sobrevivência, de salvaguarda da propriedade, de proteção da família, de defesa da honra etc. etc. etc. – sempre viveu às turras e segue se especializando e se aparelhado mais e mais para matar melhor, para destruir em escala maior e maior e maior, servindo assim, cegamente, à Tanatos, a força mortífera por execelência.
Por outro lado, os parceiros (porque o termo aliado já me cheira mal, de tão desgastada) têm, em nós, a mesma origem. E resistem heroicamente ao combate interno, insistindo em que sejamos compassivos, solidários, indulgentes, honestos, persistentes e que acima de tudo não percamos a esperança na força da Vida - Eros.

Há momentos preciosos no filme, que nos fazem perceber o quanto podemos ser sublimes e o quanto podemos, igualmente, ser mesquinhos. Não tem sentido relatá-los aqui, mas ao assistir de coração aberto, a gente sabe exatamente porque o trecho do discurso de Churchill que encerra a apresentação fala de um mundo velho que se acaba, para que um mundo novo possa surgir.

O "Canal da Mancha" de nossos dias também precisa ser atravessado, para aqueles que sobrevivermos ao massacre de nossos ideais, de nossas conquistas arduamente construídas, da tentativa de nos tirarem a fé em nossos valores.
Sim, nós precisamos voltar para casa. Para o lugar, dentro de cada um, em que ainda exista comprometimento com o Bem.

Clarissa Pínkola Éstes, no livro “Mulheres que correm com os lobos” ensina que às vezes recuar pode ser a melhor estratégia, para traçar uma rota possível de defesa.

Pensando no Brasil de hoje e parodiando Churchill, eu diria que não será com essa “lambança” (pra não dar o sinônimo exato ao dejeto da evacuação forçada) que iremos ganhar a batalha em que estamos sendo metidos à força, como recrutas ingênuos. Mas que sirva de estrume todo o lodaçal que tem sido remexido e em que nos tem sido enfiado goela abaixo.


A transformação virá. O velho mundo agoniza e soçobrará, como uma embarcação inadequada. Questão de tempo. Há de vir uma humanidade nova, que não se erga sob os escombros de seus semelhantes. 

Em tempo: Se você mudar a localização da trincheira, Arthur Dapieve, conte comigo na defesa do território da esperança.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O roubo da alma


Recomendaram-me assistir “Monsieur e madame Adelman”. Fui e agradeço a indicação. É um excelente filme!
No saguão de entrada do cinema encontrei amigos que supunham estarem indo ver  uma comédia romântica. Pela sensibilidade de quem me enviou esta sugestão por email, imaginava que não se tratava bem disso. Acertei, é claro.
O filme remontou-me às leituras de Clarissa Pínkola Estés em seu “Mulheres que correm com os lobos”, quando ela fala do roubo da pele, roubo da alma, a partir do mito “Pele de foca”. Ali, no texto de Clarissa, é a mulher quem perde sua essência. Trabalhei 14 anos com grupos de muitas mulheres e alguns poucos corajosos homens sobre esse tema e outros afins. Sempre procurei dar enfoque ao feminino como força potencial, comum aos dois sexos, mais que ao gênero propriamente dito.
No entanto, atualmente, venho pensando insistentemente, a partir de uma observação apurada sobre os relacionamentos que assisto e de muitos que, por tão próximos, chegam a me preocupar e até ferir de certo modo, em como essa questão tem vindo se propagando e acirrando e de como, muitas vezes, é a mulher que tem sequestrado o espírito do companheiro.
Quando me refiro à mulher e homem, leiam, por favor a função que cada um desempenha, na relação, qualquer que seja o tipo de casal.
Em “Monsieur e madame Adelman” acontece justamente essa mistura de identidades e esse aprisionamento do outro, por ressentimento, insegurança, obstinação, inveja, tudo muito bem disfarçado no invólucro denominado amor, casamento, parceria.
Conheço esse roteiro e posso testemunhar, com segurança, que não acaba bem.
Saí do filme triste, cansada, apressada em regressar à mim.
Aos 69 anos, muitas relações pessoais, dois casamentos, amores intensos e espectadora/cuidadora de muitos envolvimentos a meu redor, não consegui me vacinar contra desencanto, manipulação, distorção, controle. Embora meu faro me permita identifica-los à distância, sinto-me impotente frente à inebriante atmosfera que o encantamento cria e às distorções que cria.
“Monsieur e madame Adelman” traz o espelho e a possibilidade de reflexão.

Endosso aqui a recomendação.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fala Comigo!



Desde o título, o filme é corajoso. Porque exprime a reivindicação que todos temos, ainda quando se mantém latente; até mesmo aqueles que, perseguidos por tagarelices incessantes, possam afirmar o contrário. Palrear é diferente de falar e falar, diferente de falar com -  essa a questão.
Vivemos num mundo entupido de palavras ocas - vazias de sentido, soltas, aglutinadas, sem conexão com afetos - escritas, faladas, ouvidas, cantadas, caladas, recalcadas, e/ou não percebidas...
Doze anos atrás, Felipe Sholl iniciou o trabalho do roteiro de Fala Comigo. Melhor dizendo, concebeu o germe da história, gestada longamente, no decurso de seu amadurecimento como cineasta, ele que, ainda hoje menino (no melhor sentido do atributo), já nasceu velho, como dizia meu pai, quando se referia a bebês que vêm a esse mundo, plenos de um saber experiente.
Felipe sempre foi bom ouvinte. Ouso valer-me de observação de longa data, porque a sua e a minha seriedade nos permitem lembranças, desde quando eu o via, criança ainda, na piscina do Clube Germânia, depois ator iniciante no teatro do  Colégio Bennett, até como sócio do Disse-me-disse Café-e-Cultura, nos tempos do Centro Cultural Viva, em Botafogo, criadouro de uma bela geração de jovens talentosos. Felipe Sholl, em todas as ocasiões, olhos e ouvidos atentos, tanto sorvia como temperava, suave e precisamente, a convivência a seu redor.
E foi logo depois, que ele iniciou o roteiro do filme Fala Comigo, construindo-o em muitas faces e arestas consequentes, como toda boa conversa precisa ter.
Esperei por esse filme, com o carinho de quase madrinha, lugar a que me outorguei, mal soube, por ele, da existência do projeto, quando já ia em fase de finalização.
E eis que, agora, surge a obra, na tela grande, ocupada e preenchida por muitos bons atores e excelente produção, trazendo, enquanto conta a intrigante história, importantes e oportunas denúncias:

- da família burguesa, pôster de felicidade supostamente inquestionável, com imagem que parece quase perfeita ao observador menos exigente, e cujos membros, no entanto, não conseguem ter, entre si, comunicação real. Neste caso, pai e filhos giram em torno de uma mãe centralizadora, ela própria rodopiando sobre o esteriótipo de oráculo impenetrável, em que se encastelou, no papel de psicanalista.
Ah! Como precisamos – mulheres que lutamos por afirmação e emancipação – repensar a entronização que almejamos, construímos, e na qual ficamos cativas.

- da psicanálise exercida por terapeuta que, tomando arrogantemente o lugar de sujeito suposto saber, entrincheira-se na teoria, sem arriscar o conhecimento preconizado por Winicott da mutualidade, reciprocidade e experiência compartilhada, onde se dá o brincar capaz de criar e desenvolver. A pressa e despudor de diagnosticar, fazer previsão, determinar o outro e negar-lhe o direito à escolha de seu próprio destino, usados como defesa, está explícita  na cena em que a terapeuta confronta desrespeitosamente a paciente que ousou abandonar o tratamento e seguir outro caminho de autoconhecimento, na busca de autoestima.

- da polidez distanciada entre as pessoas, que nos garante uma convivência morna, aparentemente correta, mas que não facilita a criação de laços afetivos. Os porteiros, os médicos e os funcionários do hospital, os professores da escola, os colegas (porque amigos, não os há, nesta história) exemplificam perfeitamente uma forma de viver dentro de limites, que poderiam se dizer comuns, talvez, em que cada um guarda, para si, suas dúvidas, suas inseguranças, suas dores, sua vida e até sua morte, sem o risco de produzir muito ruído e de entrar em contato com sua própria humanidade, através da percepção do outro.

- do modelo de relação amorosa adotada como padrão em nossa sociedade  – homem x mulher, de idades próximas, grupos, classes sociais e costumes semelhantes – modelo que só pressupõe e aceita exceções para fortalecer-se como fator excludente de quaisquer outras possibilidades.
 A mãe-analista, no filme, demonstra aparente e quase displicente tolerância ao ouvir o relato do filho sobre seu interlúdio de prazer sexual com um colega, mas abomina a simples ideia de ele poder viver um romance com uma mulher mais velha.

- da função paterna e do papel do masculino, representados por presenças ausentes e ausências presentificadas. O pai, que não está ali de fato, aceita o lugar de subjugado, que o enfraquece frente aos filhos. Já o marido da amante, que a abandonou e por quem ela sofre e chora, volta ilusoriamente à cena, na fantasia vivida pela mulher ao ouvir, no telefone, não palavras, mas uma respiração ofegante, sinal indelével de vida e do desejo, a que ela, ferida amorosamente de morte, aspira, necessita e que a vai libertar, enfim.

Ah, Felipe Sholl, suas colegas de adolescência, presentes à primeira pré-estreia o Rio, tiveram toda razão ao afirmar como é impressionante que você tenha acumulado tanta experiência, ainda tão jovem!
Sobressai tal sabedoria na sua forma irreverente e ao mesmo tempo singela e divertida de tratar os temas do corpo – o gozo, o orgasmo, o esperma, o corpo da mulher, que ao invés de petrificado no atual modelo estéril do consumo, aparece como sinal de abundância. Esse, aliás, um dos grandes momentos da interpretação do ator mais jovem, que consegue, através de magnífica expressão facial, transmitir a ideia de fartura, no deslumbramento com que admira a nudez da amante.
Tudo isso nos é mostrado, sem deslizar, em momento algum, para o campo minado da vulgaridade ou da inconsequência. Ao contrário, transmite e exprime potência de Eros,  libertação, aceitação do que é júbilo e renovação, saúde psíquica, enfim, na aceitação do  humano,  do lúdico, do espontâneo.
E, harmoniosamente entrelaçadas, estão as referências necessárias ao inevitável, que não é prazeroso: desencontro, frustração, separação, abandono, inveja, desamor, solidão, desilusão, medo, desespero.

Talvez, o mais importante seja que, sem lições a oferecer, o filme termine no meio do caminho – como se inicia. Um outro momento, outras possibilidades, a escolha de estradas está por ser feita e os percursos, desafios a mais, a cada momento; em parceria, sempre temporária, ainda quando renovada.

- Fala comigo! – eu murmuro ao se acenderem as luzes do cinema, buscando um interlocutor.
E saio da sessão, muito mais disposta a me falar, a me ouvir, a falar, a ouvir, a ser ouvida, a pensar, repensar e me oferecendo a ser repensada. É pulsão de vida pura, esse trabalho!
Parabéns, Felipe Sholl e sua equipe! Minha gratidão exposta e registrada, deixo aqui.

                                                                                                              11.07.2017
                                                    Maria Inez do Espírito Santo
                                                    

                                         escritora e terapeuta cultural

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Martírio

Martírio


Ontem fui assistir ao documentário de Vincent Carelli – “Martírio”.

Foi preciso determinação para, vivendo este calvário diário de notícias que nos indignam e que sugam nossa energia, aceitar o chamado generoso, mas convocatório, do criador da série "Vídeo nas Aldeias", que vem dedicando boa parte de sua vida a formar, entre os indígenas, outros tantos cineastas como ele, capacitando-os a registrarem as histórias de seus povos.

Gostei muito do filme! Incomodou-me muito pouco o fato do filme não ser editado dentro de um padrão comum. Compreendi que também esse formato de fazer cinema é um desafio, fidelidade a uma postura que é, antes de tudo, a opção por ser apenas e simplesmente real. Coisa cada vez mais rara...

Além do tanto que o filme me ensinou sobre o Brasil e suas mazelas centenárias, quero comentar aqui, dois aspectos, que me pareceram fundamentais:

O primeiro, aterrorizante, é o desmascaramento definitivo da tal bancada política chamada ruralista. O registro que aparece em "Martírios" traz a cara odienta e odiosa desses seres humanos sórdidos, que falam, sem nenhuma sombra de pudor, em expulsar, controlar, matar outros seres humanos. É necessário ver, por mais terrível que seja! Precisamos saber. É uma desilusão final inevitável, que nos leva a uma conclusão: são monstros, disfarçados de parlamentares!

O segundo momento é o da fala gloriosa de uma mulher indígena. Frente ao afrontamento da Polícia Federal, que lhe indagava repetida e arrogantemente 
- Quem é o líder desse grupo?, a mulher responde:
- Não tem um líder. Todo mundo aqui é líder. Eu, ele, ela, ele, ele, até o cachorro. Todos somos líderes.
E, frente à insistência do policial, ela apenas repete:
- Não temos líderes. Somos líderes. Todos nós.

Achei ma-ra-vi-lho-so!

A par disso, pensei, vivemos nós - os não indígenas - buscando líderes e ídolos a quem possamos seguir, que assumam responsabilidades por nós, que nos conduzam e que sirvam de bodes expiatórios, sempre que as coisas não saiam a nosso contento; que possamos idolatrar, para em seguida crucificar.

Sim, como o filme confirma, temos muito a aprender com nossos povos nativos. Até porque, não foram eles, sempre ameaçados de extermínio como se fossem praga, que nos ensinaram a degradar o meio ambiente, a poluir os rios, a matar desnecessariamente os animais, a envenenar os alimentos. Os povos indígenas não nos ensinaram ganância. Esta é uma doença que faz parte de nossa herança e eles seguem, imunes a ela, querendo apenas viver livremente, tendo respeitados seus direitos e costumes.

Num dado momento, um daqueles homens indignos do Congresso, em seu discurso absurdamente agressivo, diz que os indígenas não têm história. Que se valem de fantasias expressas oralmente, porque são inferiores. Quanta ignorância! Quanto desconhecimento do manancial precioso de riqueza que contêm as narrativas milenares de nossos povos nativos!


Conhecer e divulgar as histórias dos antigos, os mitos indígenas  - eu aproveito esse espaço e ocasião para repetir uma vez mais - é garantir uma parte fundamental de nosso território cultural, que sempre esteve e estará aqui, indelevelmente marcado, desde nossas origens. Nos mitos estão, simbolicamente expressos, os ensinamentos sagrados de nossa terra.  Mais do que nunca é hora de buscá-los!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Meninas na construção de amanhãs


Sexta próxima, dia 26, a convite do Museu do Amanhã, estarei participando de uma mesa redonda, no evento cujo link aí vai.

Quem tiver disponibilidade e vontade, vá até lá. O programa está muito bem elaborado e promete trazer reflexões preciosas e, quiça!,  alguma esperança.




De meu livro "De parcerias e trapaças - histórias de ontem, para sempre" - Ed. Aletria


A aranha  e o quibungo


Contam, os antigos,  de um tempo em que aconteceu uma grande seca, lá na mata.  As árvores ficaram castigadas pelo calor intenso e quase não deram frutas naquela estação...
Os bichos foram ficando  famintos e andavam de cá pra lá, procurando o que comer. Até que os pássaros, que voam mais alto e tudo vêem, avisaram a todos que havia uma única árvore carregadinha de frutas, lá do outro lado do rio.  A notícia era tão boa, que os animais começaram a ir para lá,  aos bandos, para matar a fome que, naquela altura,  já era corrosiva.
A aranha caranguejeira, que estava faminta e não sabia nadar, ficou parada na beira do rio, se lamentando em voz alta:
- Ah! Pobre de mim que não sei nadar! Vou morrer de fome sozinha, aqui, enquanto todo mundo tá lá se banqueteando, enchendo o papo de fruta madura! Ah! Pobre de mim!!!!
De repente, ela viu que o urubu, que passava voando por ali, a caminho da fruteira e avistando-a, olhou para ela com ar de piedade. Bem depressa, ela aumentou o tom da reclamação e se pôs a chorar, aos gritos:
- Buááá!!!! Que infeliz que eu sou, por não poder voar! Pobre de mim,  que nem sei nadar!!!! Buáááá!!!!! Ninguém quer me ajudar a atravessar o rio... Buááá!!!!! Vou morrer de fome aqui, sozinha.... Buááá!!!!
O urubu não suportou ver  a aranha, assim, tão desamparada e resolveu ir socorrê-la. Deu meia volta no caminho que iniciara, pousou ao lado da desditosa e propôs:
- Ô comadre aranha, chore mais não. Olhe só: se a senhora quiser, posso lhe dar carona até o outro lado do rio.
- Ah, compadre urubu, você faria isso por mim?  - E dizendo isso, sem nem esperar resposta foi logo subindo, aos pulos, na cacunda do urubu e dizendo:
- Podemos ir, compadre! Voe logo! Se a gente demorar, não vai sobrar fruta pra nós!
E lá foram os dois, cruzando o rio,  pelos ares.
Bem  adiante, o urubu pousou, ao lado daquela grande árvore,  que ainda tinha muitas frutas. Mas, quando ia avisar a aranha que  já tinham chegado, levou um susto, porque ela já estava andando depressa em direção ao tronco da árvore, sem nem  lhe agradecer pela carona.
O urubu,  meio desconcertado, resolveu começar a saborear as frutas. No entanto, mal ele bicou a primeira fruta,  a aranha, que estava do outro lado do ramo, comendo apressada,  gritou de boca cheia:
- Essa aí, não, urubu! Essa fruta eu já tinha visto primeiro. É minha!
O pássaro, contrariado, mas se sentindo um tanto envergonhado, voou para outro galho e ia pegar uma fruta madurinha, quando ouviu a voz estridente da aranha:
- Pode largar essa aí, seu urubu! Essa eu tá tinha marcado pra mim!
E assim, cada vez que o urubu se preparava para comer uma fruta, grande ou pequena, mais madura ou menos madura, ouvia na mesma hora a aranha gritar:
- Larga aí! Essa também é minha!
Por fim, o urubu se aborreceu e muito contrariado, perdeu a vontade de comer e voltou pra casa.
A aranha  nem percebeu que ele tinha sumido. Continuou comendo, comendo, se empanturrou o mais que pôde, até que começou a escurecer e ela procurou o urubu para voltar pra casa.
Só, então, se deu conta de que estava sozinha no pé de fruta... Mal conseguia caminhar, de tão cheia que estava sua barriga, mas, sem alternativa, foi caminhando até a beira do rio e, lá chegando, começou a chorar de novo:
- Buááá!!!!! Buáááá!!!! Buáááá!!!! – berrava alto,  o mais que podia, esperando ser socorrida.
Não demorou muito e o jacaré que naquela hora estava mesmo voltando para seu cantinho, ouvindo aquela choradeira, ficou preocupado com ela. Aproximou-se prestativo:
- Ô comadre aranha, o que aconteceu? Por que a senhora está tão desesperada?
- Ah, compadre jacaré, não vê que o urubu me enganou? Aquele ingrato! Eu vim com ele, fazendo companhia pra ele poder comer as frutas daquela árvore e ele, que é mais rápido, encheu bem a barriga e foi embora, esquecendo de mim. Eu não sei nadar e não posso voltar pra casa.... Buááááá!!!!! Estou abandonada aqui! Buáááá’!!!!
O jacaré, cheio de pena, resolveu convidar a aranha:
- Olhe, comadre aranha, chore mais não. Hoje já tá muito tarde... Vamos fazer o seguinte: a senhora vem comigo, passa essa noite lá na minha toca e, de manhã bem cedinho, meus meninos atravessam a senhora. Tá bom assim?
- Ah, compadre jacaré! Você pode me hospedar essa noite? E manda me levar amanhã de manhã?
- Logo que clarear, eu prometo!
- Então eu  acho que vou aceitar...  – disse a aranha, fazendo jeito de acanhada, pra disfarçar o entusiasmo.
E lá foram os dois.
Mal chegaram na casa do jacaré, ele explicou aos filhos o que tinha combinado com a aranha e, muito gentil,  deu a ela um cantinho bem quente pra repousar, no ninho da jacaroa.
Logo ficou bem escuro e todos estavam deitados, prontos pra dormir. O casal de jacarés se acomodou num canto da casa e, do outro lado, ficaram a hóspede e as crianças.
De repente, os jacarezinhos ouviram um ruído estranho, que se repetia:
- Pac! Pac!
Começaram a rir,  e suas risadas acordaram o pai:
- Que bagunça é essa crianças? Vão incomodar nossa visita!
- É bufa da hóspede papai!!!! Ri, ri, ri, ri, ri !!!!!  - Riam muito, pensando que o som era  de puns que a aranha devia estar  soltando, depois de comer tanta fruta.
- Tenham modos meninos! Fiquem quietos e vão dormir! – zangou o jacaré.
Os filhotes se calaram, até que, passado um tempinho,  ouviram de novo:
- Pac! Pac!
Novas risadas, mais repreensões e os pac!, pac!, que duraram ainda um bom tempo. Era a aranha que, sem ser vista, ia comendo um a um todos os ovinhos da jacaroa, que estavam no ninho.
Assim, ninguém desconfiou de nada e a noite passou...
De manhãzinha, mal os primeiros raios de sol começaram seu ensaiou para clarear o dia, a aranha acordou a criançada e deu logo a ordem:
- Meninos, seu pai avisou que era pra vocês me atravessarem bem cedinho. Vamos embora!
Como  já tinham levado muita bronca do pai por causa da barulhada da noite e do desrespeito à visitante,  os jacarezinhos resolveram obedecer a aranha. Foram com ela direto para o rio e estavam,  já, no meio das águas, quando  lá na casa deles, sua mãe acordou e foi conferir seus ovinhos. Deu de cara com o estrago que a aranha fizera e começou a chorar desolada.
Revoltado com o que se passara, o jacaré correu até a margem do rio e começou a chamar os filhos, acenando para que trouxessem a aranha de volta, para ser castigada.
Lá, no meio do rio, os jacarezinhos perceberam o chamado do pai e disseram para a aranha:
- Nosso pai tá gritando pra gente voltar!
- Nada disso! Vocês não estão entendendo.  Ele está dizendo pra vocês nadarem mais depressa e que  voltem logo. Vamos com isso, meninos! Já estamos quase chegando...
Os filhotes do jacaré, confusos, obedeceram  mais uma vez à aranha e, assim que encostaram na outra margem, ela pulou em terra e saiu correndo, sem nem se despedir...
E por aí, seguiu seu caminho, andando e andando, sempre faminta e atenta ao que pudesse abocanhar.
O sol já ia alto e ela estava com fome outra vez, quando  avistou o quibungo pescando... O quibungo, aquele monstrengo peludo de que todo mundo já ouviu falar como “bicho papão”, tem uma boca nas costas, como se fosse um saco, onde guarda parte da comida armazenada, para comer mais tarde.
Enquanto pescava ia jogando pra trás cada peixe que fisgava, amparando com a boca das costas.
A aranha veio por trás dele, sem ser vista e se colocou bem juntinho daquele saco/boca, de forma que, quando ele jogava o peixe, ela saltava e  o pegava no ar, antes de o peixe ser recolhido.
Ficou ali e foi assim, comendo e  comendo os peixes, um a um, até que o quibungo cansou de pescar e apalpou o saco para conferir seu farnel. Levou um susto: estava quase vazio! Ele se virou  depressa e deu de cara com a aranha, redonda e lenta, de tanto peixe que comera. Entendeu logo o acontecido  e rosnou:
- Dona aranha, me devolve meus peixes!
- Que peixes, quibungo? Tô chegando aqui agora... Não vi peixe nenhum.
- Me dá meus peixes, dona aranha, que eu não sou bobo!!!
- Pára com isso, compadre quibungo! Não sei nada de seus peixes!
- Ah, não! A senhora não me engana!
E o quibungo ia partindo pra cima dela, furioso, quando passou, voando, um juriti.
A aranha, ardilosa que só,  não perdeu tempo e gritou:
- Ah, juriti! Como você é ingrato! Passa por mim e nem cumprimenta! Se eu soubesse que era assim, tão mal agradecido, não tinha te feito ficar tão bonito!
O quibungo, que sofre muito por se sentir muito feio e desajeitado ao ser, constantemente, chamado de horroroso, vendo a graça e a leveza do juriti voando, se interessou pelos poderes da aranha:
- Dona aranha, a senhora é que fez o juriti bonito?
- Claro! Você nunca ouviu falar como ele já foi feio e pesadão, feito um quibundo velho? Ah! Desculpe, não quis lhe ofender... Mas isso pra mim é isso é muito fácil de fazer! Só é triste saber que ele é tão mal educado que não reconhece minha ajuda...
- Ah, dona aranha, a senhora sabe fazer o que  é feio ficar bonito?
- Pois num tô te dizendo...
- Então, vamos combinar uma coisa: se a senhora me fizer ficar bonito, eu nem brigo mais com a senhora por causa dos peixes. Eu tenho tanta vontade de ser bonito!
- Pois é pra já! Estamos combinados. Mas você tem que me ajudar.
- Faço tudo que for preciso.
- Então vai lá no mato e traz um tronco bem grosso e bem forte.
- Precisa disso pra eu ficar bonito?
- Faz o que estou mandando!
E o quibungo, já sonhando com sua belezura, nem discutiu. Voltou logo depois, arrastando um tronco enorme.
- Tá bom assim, dona aranha? Este serve?
- Deixa eu ver... É, tá bom. Cava agora um buraco na terra e enterra ele, deixando uma estaca pra fora, bem firme.  – ensinou a aranha.
E ficou assistindo o trabalho do quibungo que fazia tudo que ela mandava, com entusiasmo e rapidez.
- Pronto! Tá firme que só! – mostrou o quibungo, orgulhoso de seu trabalho.
- Deixe eu ver. Empurra bem prum lado e pro outro. É parece firme mesmo.
- E agora, dona aranha? O que falta?
- Você agora vai procurar o cipó mais forte que encontrar. Corte e traga pra mim uma quantidade grande dele.
- É pra já! – E partiu o quibungo de novo pra dentro da mata. Demorou um pouco e voltou com um rolo de cipó.
Encontrou a aranha quase dormindo,  tranquila, tranquila, encostada no tronco, quase sorrindo, como quem sonha...
- Olhe aqui, dona aranha. Cipó melhor não há.
- Deixe ver. Ah! Tá bom.  Pois agora você fica de pé, bem juntinho do tronco. Paradinho!
O quibungo obedeceu prontamente. Pegando a ponta do cipó, a aranha  foi enrolando o fio grosso em volta do tronco, com todo cuidado e paciência, amarrando o quibungo, bem forte.
- Pra que isso, dona aranha? A senhora fez assim com o juriti também?
- Fique quieto aí, quibungo! Com cada um é de um jeito! Paradinho! Paradinho!
Quando acabou de enrolar todo o cipó, bem justo,  ela ordenou:
- Agora faça força, quibungo! Muita força, pra ver se está firme.
Ele obedecia e ela apertava mais e mais o cipó, prendendo o bicho com tanta justeza que ele mal conseguia respirar. E gritava:
- Faça mais força! Tente arrebentar o cipó, quibungo!
O  quibungo inchava, inchava e não conseguia se soltar.
- Tá bom! Agora vamos começar! – disse a aranha.
Então, enquanto o quibungo quase sufocando, tentava sorrir de satisfação, já  imaginando quão bonito ia ficar, a aranha pegou uma faquinha bem afiada, foi subindo pelo quibungo e começou a tirar lasquinhas do corpo do coitado. E ia saboreando os pedacinhos do quibungo, estalando a boca de prazer.
A cada corte, o quibungo urrava de dor e gritava por socorro, mas a aranha nem ligava.
Comeu, comeu,  até encher a pança e depois foi embora, deixando o pobre quibungo quase desmaiado de tanto sofrimento.
No dia seguinte, voltou e continuou a devorar o quibungo, sem pressa, nem tendo nenhuma pena de ver o desgraçado tentar de soltar, implorar, esbravejar. E o suplício continuou por muitos dias...
Cada dia mais fraco, já quase morto, o quibungo pedia socorro aos bichos que passavam. Mas como ele tinha fama de devorar os filhotes dos outros (por isso é conhecido como o Bicho Papão), ninguém o ajudava e ele ia definhando, sem ter mais esperanças, quando viu passar o cupim e apelou:
- Cupim, me socorra! A aranha caranguejeira está me devorando! Por caridade, roa esses cipós e me solte!
- Eu não! Pra depois você comer os meus filhotes? – respondeu o cupim.
- Eu prometo que nunca mais como os filhotes de nenhum cupim. Me ajude, compadre, me acuda!
Então, achando que aquele trato poderia ser  bom para sua família e seus amigos, o cupim chamou os companheiros e num instante eles deram cabo de todo o cipó, libertando o quibungo, que, a essa altura,  já era quase um esqueleto...
Mas e a aranha? Essa já ia longe, barriga cheia e bem satisfeita da vida...
Só que o quibungo jurou vingança. Aquilo não ia ficar assim. O tempo passou, ele foi se recuperando, mas não esquecia a crueldade daquela aranha.
Até que aconteceu de haver, de  novo,  uma grande seca... Dessa vez, os rios estavam quase vazios  e só tinha restado uma lagoa pequena, para onde todos os bichos iam matar a sede.
O quibungo pensou que podia ser a oportunidade de pegar a aranha. Em algum momento ela ia aparecer, por ali, para beber água.
Mas a aranha também andava mesmo preocupada com  esse possível encontro. Daí, bolou um plano: encontrando uma pele ressecada, presa somente pela caveira de um veado, que morrera esturricado pelo sol, ela se enfiou debaixo dela e foi, assim, disfarçada de veado, meio manco e todo desajeitado, até a beira do lago.
Quando viu aquele bicho estranho chegando, todo troncho e cabisbaixo, o quibungo ficou penalizado.:
- Cruzes, compadre veado, ‘cê tá acabado, hein! O que lhe aconteceu?
Lá debaixo da pele, a aranha fez voz de veado maltratado e respondeu:
- Ah! Você nem queira saber, compadre quibungo... Foi a aranha  caranguejeira, aquela desalmada, que me pegou e quase acabou comigo!
- Com você também? Pois eu bem sei o que você está passando! Comigo ela fez  a mesma coisa! Mas ela me paga! Estou aqui esperando aquela maldita!
Bem depressa, a aranha bebeu toda a água que pôde e saiu, de mansinho, ainda desejando:
- Tenha um bom encontro, quibungo!
E se  afastou debaixo da pele de veado, se arrastando pelo morro acima, até estar bem distante... Então, jogando fora a pele, subiu numa árvore bem alta e gritou pro quibungo:
- Quibungo! Quibungo! Uuuuuu!!!!!! Sou eu, olha aqui!!!!
E, antes que pudesse ser alcançada, se afastou ligeira pela mata adentro.

... e quem contou isso, há muito muito tempo atrás, garante que até hoje essa história  ainda não acabou...

História que apresenta elementos de origem africana (recolhida por Silva Campos entre os trabalhadores negros do Recôncavo da Bahia, o que o fez identificá-la como de  origem africana, especialmente da Costa do Ouro, dos negros do grupo Tshi ou Ashanti, em cuja literatura oral a aranha domina como centro de interesse. No entanto, os episódios não são exclusivos da literatura oral africana. Couto de Magalhães em O Selvagem, divulgou as lendas da raposa, colhidas nos sertões do Mato Grosso, entre indígenas  da família linguística tupi ou mestiços dos mesmos grupos, que trazem elementos coincidentes, o que faz com que seja um belo exemplar da junção de duas mitologias preciosas: indígena (de nossa terra) e africana.